24.9.19

DIANTES


Lembrança própria ou do narrado?
O medo, o espanto, o novo ao redor dos atos:
acordar, os espaços da escola, as outras crianças.
Não eram os iguais, eram os diferentes, desde sempre.
Eles dormiam tranquilos.
Seus olhos abertos querendo conversar.
Sempre acordada para ouvir.

No filho a angustia para que durma, desligue do mundo,
se conecte com o além, com o íntimo,
com o mesmo mundo que ficou pra trás, ficou de fora,
e irradia pela janela,
em pios, aromas, gargalhadas.

Nas lembranças não existem muitas risadas,
se sobrepõem os silêncios.
E as conversas inteligíveis.

O filho começa a falar,
quer comunicar tudo que pensa e vê.
Tudo que lembra.
É a vez dos verbos,
primeiro vieram os sujeitos, substância dos acontecimentos.
Seres, antes mesmo de serem.

A lembrança vem estática, imóvel, fotográfica.
Apenas o som se move.
E seu olhar panorâmico.
Olha pra dentro. Pro sono do filho.

Que criança é essa? Não existe criança, parece que nunca existiu.
Sempre foi a mesma.
Nostálgica.
E insone.


10.9.19

ANTI

anti     doto
           dots
           três
           ...

ponta solta
fio a tecer
tecido linha por linha
pontos ligados
elétrons
sinapses
sinopse de nova obra
novo ser

inf anti

contra placenta
contra o canal
contra o silêncio
favoração em contração
excl !

ruptura

.

travessão
travessia
o começo
e tudo de novo
respiro

;


25.8.18

A primeira translação


Você surgiu com astros terrenos, de virgem, mas com ascendência selvagem, no sagitário, também daquela que meio bicho te paria e meio humana se perguntava se tava tudo bem com você...

Estava tudo bem. Cada curvinha, cada pedacinho... Tudo inteiro, tudo macio, tudo encaixado... Chegou se encaixando em meus braços, com a "pega perfeita" querendo mamar. Como todo recém-nascido, só entendia os cheiros, o colo, o acalanto, o alimento. 

E eu entendi essa troca. Nos entocamos. Foi um puerpério invernal, mas teve sol, teve visitas, teve a caverna cinematográfica do cinematerna e dali começaram também a ter frestas para outras saídas, começamos a sair da toca...

Eu te levava pra passear? Ou você me levava? Ou às vezes eu me levava e você ia junto também, porque eu precisava ficar sozinha às vezes pra entender toda essa revolução astral que é se tornar mãe. E você podia ficar ali, no balanço do carrinho, em seu movimento, observando árvores, ouvindo pássaros, olhando o céu... E eu podia olhar pra frente e descansar um pouco do olhar pra você...

Mas era intenso, e quando você dormia eu sentia saudade, eu queria mais.

Florescemos nossa nova condição e chegou a primavera.
Novos frutos, novos desafios, novos passos, cada vez mais longe...

Você começou a sorrir, a cantar, a dançar com as mãos, a pegar o pé... Você passou a fazer parte da nossa vida e começamos a te apresentar a ela. Nós recebemos os amigos com sua presença, nós viajamos, nós mergulhamos em museus de tantos tempos e espaços, nós compartilhamos experiências com outros bebês nos cafés da tarde na Lumos, nos aventuramos com a Tê e a Nena, começamos a descobrir nossa solidão em estarmos sós, conhecemos o tédio, o cansaço, as noites de êxtase e exaustão, todos esses novos desafios semeados.

Raiou a nova vida, o verão ia chegando, as festas, as comemorações, (meu natal, o natal de todos, o ano novo...).

Você, ainda tão novo, ainda em experimentações e já conheceria um ano novo?

Mas tudo era novo, cada dia era uma surpresa que fazia seu olhar brilhar. Agora com foco, agora com gana, agora com gargalhada, com choro intenso, com fome, com ardor, com calor, com brilho, com vida!

O verão seguiu com passeios, um tempo excepcional, diferente da rotina, que você ainda nem sabia o que era e viria a conhecer...

Sua nova pediatra nos ensinou a te ensinar um cotidiano, era importante, pra dormir, se alimentar, brincar, descansar.

O verão ia acabar, o carnaval ia passar e o ano, enfim (?) começar. Um conceito que ainda falta muito pra você assimilar.

Meio ano com você, eu estava entendendo mais a nova vida e já via como seria possível te incluir na "velha", aquela que nunca voltará, pois nada será como antes.

Nem pra você. Agora você começou a conhecer sabores. Você pode degustar as cores, formas e texturas que o cercam. Não apenas lambidas e mordidas em brinquedos, mas sorver e engolir doçuras, azedumes, amarguras, picâncias... Mas nunca sapos! Não os engula, cuspa, sem dó, como você faz quando já está satisfeito e eu ainda não entendi.

E você estava pronto pra mais, muito mais, eu desconfiei que ia gostar da escola e você se adaptou rápido. Nos adaptamos bem na nova rotina. Nosso tempo junto perdeu quantidade e ganhou qualidade. 

Um outono de muita maturidade: estocando conhecimento, experiência, aprendizados, histórias, as primeiras viroses e noites de respiração difícil, e nos preparando para voltar ao inverno...

Aquele de quando você nasceu, mas agora com uma nova pessoa, uma que já conhece muito mais do mundo e vai atrás daquilo que quer.

O céu continua sendo o limite e ele testemunhará a comemoração desses seus 365 dias ao redor do sol, pelas luas crescentes, novas, minguantes e cheias e tantas estrelas iluminando ao redor!


5.5.17

lua crescente


.você está aqui todo dia
a cada hora uma nova lembrança
em formato de balanços, cambalhotas, piruetas

reviravolta em minha vida

é pra sempre

em toda ansiedade e serenidade contida nesse tempo e espaço

eternidade em que um sentimento cabe e pulsa mais que todos:

amor bruto, puro,
amor incondicional, infinito...
crescente.

24.4.17

dobrada


Você se descobre entre quatro paredes
meu mundo se recolhe e se adapta ao seu tamanho

Na expiração, às vezes busco fôlego para nós
e me assusto

Não sei mais por onde caber

E a busca de espaço agora é pra dois

Aperto

Mas desenlaçada e dobrada em força e amor

10.4.17

tocada


A primeira vez pareceu um leve farfalhar de uma pétala
se movimentando numa tranquilidade outonal;

as seguintes foram como brisas, um toque invisível,
de uma presença delicada e incerta;

até que começaram as certezas:

a existência está deixando de ser silenciosa - se faz presente
na proeminência do tamanho e nos gestos sentidos.

Me sinto tocada pela relação tão íntima,
um toque já cotidiano e que diariamente me aquece. 

Hibernaremos num inverno incubando amor.

Para então desabrochar num sentimento já conhecido,
mas numa relação totalmente nova.

Raízes e brotos, crescendo pra dentro e pra fora:
você florescendo menino, eu renascendo mãe.

7.3.17

gestação


mãos e pernas que ainda não me alcançam
mas já me tocam
praticam gestos, passos, saltos e mergulhos

o mergulho agora está ao lado do meu coração
e bate em dobro aqui dentro

compassos tranquilos, animados
em construção

como todos os pedacinhos, afetos, relações
dia a dia a se formar

até partir...
pra podermos nos encontrar.

21.12.16

lavra-livre-livro


palavrando terras
e semeando finais felizes

eras e vezes e quantos capítulos puderem florescer!

10.11.16

pedacinha


A maturidade me levou a ser pedaços.

Tantas partes que se foram. Tantos apartes.
As peças que se encaixaram, se desencaixaram, foram encaixotadas.

Me sinto um pedacinho de gente.
Um coração e uma cabeça pulsantes.
Em plenos pulmões
e ares rarefeitos.

Um quebra-cabeça de mim mesma.
Onde me encaixo, me conecto, em que me ligo...

Mão pra dar - cumprimentos, apoios, pazes, parcerias, na cara.
Pé - pra fora, na bunda, na estrada.
Ombros - que me dão com as costas, ou para recostar.
E os miúdos.
De dentro. Entranhas, estranhas. Que filtram a bílis ou a engolem a seco

Despedaçada e íntegra, em construção sempre.
Sou a mesma, e nunca igual, sempre em busca e incompleta.

Que estará por vir pra me somar e me diminuir e multiplicar e subdividir.

Em que pólos se reunirão todos esses átomos? Pra onde irão até explodirem?

11.10.16

desacordo


acordo comovida mas paralisada
a vida se encrespa um pouco mais

preciso dar corda aos projetos
sem me enforcar

sufoco
golpe na boca do estômago
rarefeita

tudo está lá
remoendo, revirando, revoltando

em sua óbita
o mundo também gira
haverá outro amanhecer

22.6.16

tempos rareados


Porque quando eu escrevia menos
as palavras me afogavam
dava tempo de pensar, sentir
e tudo isso ansiar pelo transbordamento em frases, versos, mirantes...

Agora não dá mais.
Um mínimo lampejo de poesia, uma faísca de criatividade e tudo é absorvido...

Textos, roteiros, artigos, posts, emails, mensagens em celular...

Não há tempo de maturar nada.
Aturamos tudo.

Ou ignoramos.

Tempos ignorantes.
Áridos.

El niño se foi. Ficou esse senhor sisudo.

Não aquece mais, não chove, não brilha, não floresce, não deságua, não muda em novas estações.

Mas eu espero.

15.2.16

temporal


o mundo cai
e desliza sobre minha janela

escorrendo sobre a terra
e acalmando as lavas do centro de tudo

23.11.15

rar e-feito


a-hora ar-ido

sem-e-ar

des... erto
         erdo
         ejo

                 plan-(t)ar

                                 muda
                                 mudo
                                 dança

                 uma nova primavera

vem e vai
inspira expira adentra
                                       ar

19.8.15

em obras


mordo aço mas não calo

calejo a mão sem largar a enxada


foi-se a força, mas ainda há martelo

martelo mesmo que não arremate


e mesmo pregada com as marretadas

na busca encontro outras ferramentas

31.7.15

tempos invernaculares


vira-se a folha
muda-se o clima
e aconchega-se a estação

26.6.15

cor ações preto no branco


a cor reta
são várias
e curvas

reluzem com gosto de mel
e explodem entre sóis e chuvas

"um dia de sol é tão belo quanto um dia de chuva
ambos existem
cada um como é" 
F Pessoa 

19.6.15

f-rio em (t)riste


frágil rio
escorrendo nas faces.

denso suspiro
que sai e se vê pelo ar.

passos em quebrantos
de folhas em folhas.

manhã de melancolia invernal
congelando pensamentos
mas refrescando o coração.

3.6.15

trans-içada

reen-caixes
em com-passos
de mu-dança

ja-nelas
pé em
por-tão
cor-ação

6.4.15

carnavalha


de cadência em cadência nos desblocamos

sem bateria nem harmonia
serpentinas nos tentam
mordemos confeitos
confetes
caem em nossas cabeças
a falta de ritmo
de dar pulos
nos sobram tombos...

carnaval tombado
patrimônio pulsante aqui dentro

no aguardo de algum renascer das cinzas
ressurreição de uma nova estação...

2.3.15

a matéria dos sonhos


solidifiquei em minha imaginação de infância
a mulher que queria ser,
o par para buscar e a dupla para me formar.

buscava uma construção segura,
linhas harmônicas,
princesa, diva, vênus.

o plano era lindo, contornos perfeitos, textura de mármore.
mas a busca quantas vezes ruindo o sonho.

talhando tanta projeção, sempre acabei recolhendo cacos.

mas nunca deixando de acreditar
que ainda encontraria a matéria para construir o futuro.
e por sorte (ou teimosia) não engessei meu garimpo,
já não era mais ouro, bronze ou mármore que ia encontrar.


era terra...

em um de meus tombos,
daqueles em que se vai ao chão,
se chafurda na lama, mas se sente a vida.

saí filha de gaia, me fazendo do barro.
as mãos sujas,
matéria argilosa,
formas ardilosas,
resultado inconcluso,
disforme, em camadas.

sigo pronta para voltar ao torno,
remodelar cada plano,
derreter e remexer,
esculpir, polir...

sentir a matéria prima,
orgânica, imperfeita, viva,

de belas artes!

1.2.15

de - cisão


navalha o que vai
pra que valha o que venha
na vala o que foi
pra abrir ala ao que chega


28.11.14

passagem de partida


ventos que sopram
velas que apagam
e luzes se acendem

(novo foco e brilho para um ano que começa)

24.11.14

per do a dor


Per ti dei tanto, que perdão não dou.

Não porque não tenha,
mas porque ao não me pedir tudo se perdeu.

Assim não me dôo mais por ti,
e me doendo perdôo a mim.

20.10.14

Pesadelo da aurora

Tantos sonhos acordada
O olho já não prega
A cabeça em marteladas
Fixação

Muito tento tomado
Consciente em atenção
Tentação que não se rende
Redenção

Inconsciente desperto
Tão longe
Cansaço que invade
Solidão

17.9.14

caos-tastrofe


.batidas de uma estrofe em busca de harmonia:

CAOS-A-CASO-CAOS-A-CAOS

acordes que despertam mas não entram em sintonia.

12.9.14

na pedra do caminho tinha um meio


no sabor do vento
vem o orvalho
vem galhos secos
vem os aromas do colorido das folhas  .

conforme a dança
vem o compasso
vem os tropeços
vem o embalo  .

deixando me levar
vem a leveza
vem a incerteza
vem a vida  .

indo com as outras
vem as marias
vem as emilias
vem os pastores e os imperadores
(às vezes os pequenos, às vezes os grandes)  .

e no fluir vem as amarras
o enlaço com outros
os novelos e novelas
e, frouxas ou justas, minhas rédeas  .

16.7.14

espelho, espelho eu

no espelho não há reflexo
tudo opaco
desfigurado

faltam contornos
e não sei como contornar

por onde traçar meus sonhos
preencher lacunas
e colorir

reflexão do que está por dentro
sem ter o que refletir

2.6.14

ou... tono


verões destronados
distintos tons

melódicos verdes gris
para verdes invernais

luz dourada arrepiando a pele
aconchegando em sóis e interiores

secando rios, folhas
e virando páginas

ao vento que gela
mas embala o coração

20.5.14

*bolhar*


vidas em quinas e arestas
curtas e longas distâncias

mira se insinu(c)a e se impõe
no plano, se bola:

a tacada dada
e as bolhas no ar

ponteio. bolhar.

1.5.14

** pés pelas mãos **


E hoje (um ano passado) vejo que faltou a despedida.

As tentativas de explicação engasgaram,
cada um se entendeu a seu modo.

Quando tentei acenar o tchau,
vi minha mão balançando no ar por meses a fio...

A mão que você por vezes procurou era para apoio,
nunca compartilhou a despedida.

Engoli um adeus em silêncio.

Minha mão se encheu de vento,
como a nuvem que eu imaginava agarrar
andando de carro e olhando pro céu na infância.

As mãos tão livres e vazias,
deram energia para os pés,
que seguiram seu caminho...

Ir-mãos

A busca de outras mãos companheiras...

Para balançar, brincar, abraçar, segurar, aplaudir.

"se meu corpo estivesse marcado 
por lábios ou mãos carinhosas, 
se saberia..."

Os beijos roubados, os abraços esquecidos, as mãos dadas...




21.4.14

n-ovo


re-colhida
em topo de galho

parto em nas-cimento
duro e flor-ido

cam-ninhada
para descascar

minhocas para alimentar

e voar...

27.3.14

confissões venosas


men-tiro
no alvo
negro coração

em macúmulos
de sepultadas doces lembranças
em-fartas derramadas

assim resta
entre nós
dor-mentes

20.3.14

spoon me de conchinha


Noite romântica
estouro
garrafa aberta
escorrendo
na taça

Spoon me

Meia-noite
lua crescente
taças sorvidas
lambidas
no pescoço

Fork me

Noite adentro
arranhão
pescoço marcado
lambidas
nas bocas

Dessert us

4.2.14

contagem progressiva

fazer,
pedir,
resolver,
fechar:

contas

dívidas
de vida
divididas

parcelas de trabalhos,
paixão,
e sonhos

busca da equação onde tudo caiba
todos se encaixem
e ainda sobre um cantinho só meu...

27.1.14

desfio da meada


enozada
buscando laços
entre embaraços


31.12.13

cada ano seu recreio


chega de balanço
de gangorra
gira-gira

deixa que os outros brinquem ao redor

tempo de voltar às origens

o melhor do pátio era o tanque de areia
surpresas em conchinhas
formigas
folhinhas
e infinitos castelos pra construir e povoar

pensamentos, sonhos, planos, faz de contas:

era uma vez 2014...

23.12.13

metas físicas


tempos de planos
todos em coordenadas ao redor

aqui, altos e baixos
curvas fora do eixo em diversas dimensões

pontos dispersos
linhas tortas
x, y, z

muitos lados possíveis
lado a, lado b, lado a lado, traçados alados

mas sempre com sonhos, sempre metas
busca de fórmulas e equações para resultar concreto, real, físico e mais além...

(como chocolate, pequena! e panetone! com goles de lágrimas, saliva e champagne!)

2.12.13

des pé ta la da


. pétala ante pétala a aridez se esvai
orvalhando lágrimas que escorrem ao pé do talo

se farfalham ao pétalo do ouvido
sussurrando novos horizontes

invade então o aroma que inebria
fazendo trocar pétalas pelas mãos

assim espalham despedaços que florescem
perfumando à pétala da letra .

28.11.13

data vespeira de mel


ansiedade como se fosse hoje
criança com pacote nas mãos
o laço não faz anúncios
mas pode trazer presentes
o que mais quero

muito passado no colo
e futuro na garganta entalando
é preciso engoli-lo
pois ele não foi nem será

respirar tranquila e sonhar no agora
com o presente aberto, seja o que for...

14.11.13

re (ru) mando


tanta vida pela frente que ficou pra trás
dividida em direções possíveis
em meio ao meio e em busca de meios
de chegar lá, ou ainda adiante...

6.11.13

. ^-^ . ^-^ . ^-^ . ^-^ .


(h)a pelos e miados por toda parte.

mas nos cantos se encontram ronrons.

3.10.13

comovida


. comovente soa terno e sereno
delicadeza quase contemplativa

mas comovente é também o que se move

talvez em emoções invisíveis é que sejamos tocados
mudando de estado e de espírito
e assim, quase sem ver, acontece nos comover .

27.9.13

encurvada


sonhos traçados foram borrados
perdi meu contorno
não sei por onde fazer o desvio

que direção seguir
para não desfacelar

onde encontrar sentido
além do que vem de dentro e dói tanto

27.8.13

letardia


letargia
que arde
que tarda
que leta
lateja

19.8.13

em fases


o copo parece vazio, mas a lua está quase cheia.
de luz?
de sonhos?
de dragões?
de guerreiros?

forte para vencer batalhas?
forte para serenatas?
forte para brilhar?

intensa para vencer o ar gélido ao redor?
radiante para não se deixar encobrir?
límpida para não minguar no instante seguinte?
luminosa para acreditar que depois, apesar de tudo poderá crescer?

13.8.13

"agora mesmo pode estar por um segundo"


um segundo, um primeiro, números passando incessantes.
sempre tão em cima da hora.

sentindo falta de deixar o tempo correr mais frouxo.

pra não precisar correr tanto atrás
e chegar em ponto...

exclamativo e reticente, como gosto.

1.8.13

origene


parte de si
e parte
seja mãe
seja pai
ou tantas partes

18.7.13

queda livre


liberdade ou precipício

desabada
mas sem chão

tantos passos
a seguir
e seguir...


9.7.13

nem era uma vez


não me livro
da página em branco

o marcador está ali
sublinhando

não há palavras nem orações
que libertem da sentença:

exclamativo vazio
nem começa nem tem meios para chegar
em algum final feliz

inspiro soluços e expiro a solidão
ao menos a esperança é reticente...

3.7.13

SOLUÇ ã O


sal amargo escorre em meu rosto
densidade líquida
cheiro de naftalina e de sonhos
bolha que estoura caudalosa em estrondo no peito

27.6.13

volta e meia vamos lá

recu-operação:
voltar a dormir
voltar a respirar
voltar a olhar pra fora

recuo-peração:
voltar à página em branco
voltar a esperar
voltar.

21.6.13

migalhos


que não florescem nem alimentam
o mal pela raiz
frutos?
e onde estarão se mentes?

10.6.13

afetividade felina


a mão que acarinha pelos
ou pelos que me aninham?

4.6.13

amatemática


devolvam meus sonhos

os dividi tanto
não me sobrou nenhum
nem mesmo pra chorar a perda

devolvam meu choro
que o que está preso encarcera tudo

dessa vez dividam comigo
sem me sub-traírem no caminho
serei fiel à soma

serei mais do que estou
desconfigurada no encolhimento
e fora de minha própria geometria

24.5.13

no mais, tudo menos


dessaldada de saudades
do que nem nunca

16.5.13

falta de ar


respirando fundo pra tentar soprar a dor
pra ela ir embora ou pelo menos parar de arder
haverá ar suficiente?

(rumo a um inverno com árvores desfolhadas e pétalas caídas no chão)

11.5.13

.de existência.


de-existir
o outro dentro de mim
escolhendo caminhos
que meus passos vão ter que seguir...

6.5.13

. pesar .


Acabou-se a leveza.

Ela estoura como uma bolha no ar 
e escorre espessa como uma gota de chuva
 mas que não pode vencer o ar seco.

A lágrima seca antes de cair 
e a saliva ausente para qualquer palavra. 
A garganta arranha
num ruído que impede o grito. 
Tudo em suspenso.

Talvez o nublado indique a chuva. 
Talvez lave a alma e indique a bonança. 
Talvez tudo se torne mais denso, mas vivo. 
A aridez desse deserto é uma fruta fora de época, 
de gosto amargo amarrando a boca.

Talvez se acorde do pesadelo que não deixa dormir. 
Talvez os barulhos dos pingos confortem 
como um dormir abraçado e protegido.  
Talvez a gente dance molhado 
como crianças sem medo do amanhã. 
Talvez...

26.4.13

atentada

não tiro mais do alvo
o arco fecha
na íris
de
cor

17.4.13

vice-versus


Queria me esparramar em todas minhas qualidades e defeitos e mesmo assim caber no mundo.
Queria sair fora da casinha e encontrar meu doce lar.
Queria que o de dentro alcançasse as pessoas.

Às vezes tão inadequadra.
Desenquadrada.
Fora do foco.

Mas mesmo assim:
no ar...

22.3.13

re-versos


aversão inversa em nova versão
atração republicada
em privado

15.3.13

outono precoce


dia cinza.
ao menos veio com o  frio
para o casaco poder me abraçar.

11.3.13

latência


me jogar com incerteza me faz sentir a dor do tombo
mesmo que ela não venha.

21.2.13

meios para a plenitude


meia lua crescente no céu
meia noite badalada no relógio
meia luz tremeluzente no quarto
meia boca nos lábios
em meios sorrisos
olhos meio abertos
se inteirando de meu ser pela metade...

15.2.13

romantidade


sem arroubos
madura e segura
na mão quente e firme
clareza leve e solta
em firmamento de paixão

8.2.13

abs


te traio
no extrato
que sorvo
e sinto
surda
e soluta

te abstraio
no abstrato
que absorvo
e absinto
absurda
e absoluta

30.1.13

"sabiá lá na gaiola fez um buraquinho, voou, voou, voou..."


pensamentos em expansão no horizonte das montanhas...

se expande e se dilui confortável, sem amarras...

de volta à "casinha", falta espaço, eles se embaralham e leva tempo para assentar.

o bom é que na reorganização sempre há pensamentos velhos e menos úteis que são descartados liberando espaço.

23.1.13

du-elo


se te ultimato
é pra que não me ultimorra
em busca de trégua para amor sem fim

20.1.13

vã filosofia


preenchem os
pensamentos vãos
que ficam
ser ou não
sim

10.1.13

DDA de DDD

me atendam
ao toque
aos sinais
aos sentidos
alarmados
silenciosos
vibrantes
mudos

em chamados perdidos
escondidos na curva
em desalinho
cruzados

e salvem meu estoque
desse déficit de atenção.

20.12.12

sentimentos répteis

crocodilo afogado em lágrimas
com coração de pedras perfurado
transbordando o vazio do peito

17.12.12

madrugada


a noite em branco,
desperta para a escuridão,
às claras, no pretume azulado,
tão cheio de sombras e memórias,
à luz de meu passado, esperando
o amanhã raiar.

6.12.12

feminimamente


Em busca de interlocução que me olhe como mulher.

Apagada, sem contornos de minhas curvas, na aspereza de minha maciez, bela voz afônica, esganiçando piscadelas úmidas, amor pra dar em braços de ferro, rendida em joelhos bambos, fértil em casca seca.
Aos que trouxerem cantil, encontrarão a flor do cactus e se hidratarão dos cortes dos espinhos em sangue vermelho paixão.
Oásis pra nós, em sois, estrelas e vulcão.


30.11.12

blue



você tão out of the
eu tão in

na vitrola ele gira
no céu ele vibra
em seus olhos pisca e serena.

26.11.12

estado físico da pessoa


minha solidão me liquefaz
dura como o ar
até amanhã

14.11.12

gloss-ary


você chegando out of the blue,
me levando in the grey.

mas para out siders,
ainda existe outros tons.

# ra in bow feelings

11.11.12

felizes para...


casamento não como caminho sem volta
mas onde se vai e se quer voltar todos os dias

7.11.12

vãos os anéis se os dedos não ficam


do que você abriu mão?
de não segurar a minha?
pra me deixar abanando?
ou pra acenar pra você?

tateio no escuro
e me estendo insegura...
vem?!

31.10.12

sim tonia


de quantos silêncios é preciso para dialogar com você?

25.10.12

três anos


do passado pro futuro
vc veio sem presente
chegou quando eu luto
faltou nossa festa

nos acomodamos nas batalhas diárias
e assim encaixamos
sem laços de fita
só na mudança

o lar foi refúgio
sem muito doce ou amargo
tampouco pimenta
nem por isso sem sal

paixão que morreu atropelada
amor que nasceu machucado
feridas cicatrizadas
felinos domesticados

agora,
não é presente é hoje
já cheio de ontens
e eternos amanhas

três anos lado a lado
escalando aos montes
com todas as arestas
e curvas da estrada

desorientados no tempo e no espaço
cheios de bagagem e desbussolados
procurando nosso lugar ao sol
sob noites de luar

com sombra e água fresca
e céu estrelado
na vista:
horizontes cumpliçados em muitas novas trincas...

18.10.12

fisioterapia


o exercício da paciência

16.10.12

# paradig emble #


auto-prag-sinto-enig
mático

8.10.12

eu pro fundo


medo de confrontar a fundo
porque, neste fundo, nossa trajetória é solitária mesmo
mas fico à flor da pele de pensar assim

porque já me senti compreendida de dentro
talvez quando o dentro estava mais na superfície e mais fluído,
com olhos mais puros e menos viciados

gostaria de dar as mãos e sonhar junto
mas sonho com isso sozinha
e, cá pra nós, nós não há, só eu.

30.9.12

aurora


desperta dor
me toca
às 4:30
escuro e frio
que nada pode encobrir

feridas em carne viva
inerte
nem pesadelo nem sonho
insônia crua 
em sons zumbidos
à espera dos novos pios de morcegos

24.9.12

estacionada


no inverno
o chamado pra hibernar
na primavera
esperança de florescer
no verão
para então raiar
no outono

e esperar que mude
esse tango-delay
da estação.

22.9.12

soslaiou


faltou com a palavra,
trouxe apenas aquela expressão.

não de sim mas de porém.

não preencheu, embargou,
a voz a saliva a mão.

do toque que acenou,
do olhar que fugiu,
do pulsar de vai e vem...

foi.

14.9.12

satisfação


pra você
provar
eu
te desejo
você repete

pra você provar eu
te desejo você repete

11.9.12

ligamento cruzado anterior


ser flexível,
manter-se em pé,
seguir em frente:

cansaço de tanto cabo de força pra me sustentar...
e de repente, um salto maior que a perna, tudo explode...

a insustentável leveza do ser...
rompeu-se.

quem serei eu após?

30.8.12

enlaços



ele, estranho o suficiente pra ser normal.

eu, em molduras pra não transbordar da casinha.

nós, como diría o poeta, para se ver (e viver e conviver) de perto (e aperto).

espremidos e exprimidos por cá…

dispersos, diversos em versos por lá e acolá...

22.8.12

receita do embolo


compilando a farinha dos meus pensamentos...

20.8.12

era uma vez... e outra também...


em busca de novos roteiros pra minha vida...

pra seguir no bom e velho rumo da escrita...

28.7.12

ao menos não a cabeça...


perdi a hora.

(estará com o bonde ou esse já está no rumo?)

17.7.12

(des) (a) fio.

um por todos e todos por um...
fio -

3.7.12

ataratulada


Trabalho em busca de trabalho.
E assim me esgoto em busca de revigor.

20.6.12

cardiolinguística


solidão, palavra no diminutivo

11.6.12

em uma segunda-feira cinzenta qualquer


o tempo ruge

urgindo de pressa e rouco de frio

4.6.12

metamorfossil


lagartas no estômago
que queimam e encasulam
ou de borboletas que quererão voar

24.5.12

ex.ame


es.finge que traz a verdade (devorada) como
es.tatua em minha cara
es.tática pregada em es.cola
esTUDO:
que me deixa ex (es.terna, es.traviada, es.trume)
e por fim (ou ao contrário)
não me deixa NADA.

18.5.12

pena (da caneta à piedade)


o dito pelo não dito.
des-converso.

9.5.12

sin gu lar


situação ímpar
que brota do zero
e termina sem companhia

(deixando saudades e se pedindo bis)