22.6.16

tempos rareados


Porque quando eu escrevia menos
as palavras me afogavam
dava tempo de pensar, sentir
e tudo isso ansiar pelo transbordamento em frases, versos, mirantes...

Agora não dá mais.
Um mínimo lampejo de poesia, uma faísca de criatividade e tudo é absorvido...

Textos, roteiros, artigos, posts, emails, mensagens em celular...

Não há tempo de maturar nada.
Aturamos tudo.

Ou ignoramos.

Tempos ignorantes.
Áridos.

El niño se foi. Ficou esse senhor sisudo.

Não aquece mais, não chove, não brilha, não floresce, não deságua, não muda em novas estações.

Mas eu espero.

15.2.16

temporal


o mundo cai
e desliza sobre minha janela

escorrendo sobre a terra
e acalmando as lavas do centro de tudo

23.11.15

rar e-feito


a-hora ar-ido

sem-e-ar

des... erto
         erdo
         ejo

                 plan-(t)ar

                                 muda
                                 mudo
                                 dança

                 uma nova primavera

vem e vai
inspira expira adentra
                                       ar

19.8.15

em obras


mordo aço mas não calo

calejo a mão sem largar a enxada


foi-se a força, mas ainda há martelo

martelo mesmo que não arremate


e mesmo pregada com as marretadas

na busca encontro outras ferramentas

31.7.15

tempos invernaculares


vira-se a folha
muda-se o clima
e aconchega-se a estação

26.6.15

cor ações preto no branco


a cor reta
são várias
e curvas

reluzem com gosto de mel
e explodem entre sóis e chuvas

"um dia de sol é tão belo quanto um dia de chuva
ambos existem
cada um como é" 
F Pessoa 

19.6.15

f-rio em (t)riste


frágil rio
escorrendo nas faces.

denso suspiro
que sai e se vê pelo ar.

passos em quebrantos
de folhas em folhas.

manhã de melancolia invernal
congelando pensamentos
mas refrescando o coração.

3.6.15

trans-içada

reen-caixes
em com-passos
de mu-dança

ja-nelas
pé em
por-tão
cor-ação

6.4.15

carnavalha


de cadência em cadência nos desblocamos

sem bateria nem harmonia
serpentinas nos tentam
mordemos confeitos
confetes
caem em nossas cabeças
a falta de ritmo
de dar pulos
nos sobram tombos...

carnaval tombado
patrimônio pulsante aqui dentro

no aguardo de algum renascer das cinzas
ressurreição de uma nova estação...

2.3.15

a matéria dos sonhos


solidifiquei em minha imaginação de infância
a mulher que queria ser,
o par para buscar e a dupla para me formar.

buscava uma construção segura,
linhas harmônicas,
princesa, diva, vênus.

o plano era lindo, contornos perfeitos, textura de mármore.
mas a busca quantas vezes ruindo o sonho.

talhando tanta projeção, sempre acabei recolhendo cacos.

mas nunca deixando de acreditar
que ainda encontraria a matéria para construir o futuro.
e por sorte (ou teimosia) não engessei meu garimpo,
já não era mais ouro, bronze ou mármore que ia encontrar.


era terra...

em um de meus tombos,
daqueles em que se vai ao chão,
se chafurda na lama, mas se sente a vida.

saí filha de gaia, me fazendo do barro.
as mãos sujas,
matéria argilosa,
formas ardilosas,
resultado inconcluso,
disforme, em camadas.

sigo pronta para voltar ao torno,
remodelar cada plano,
derreter e remexer,
esculpir, polir...

sentir a matéria prima,
orgânica, imperfeita, viva,

de belas artes!

1.2.15

de - cisão


navalha o que vai
pra que valha o que venha
na vala o que foi
pra abrir ala ao que chega


28.11.14

passagem de partida


ventos que sopram
velas que apagam
e luzes se acendem

(novo foco e brilho para um ano que começa)

24.11.14

per do a dor


Per ti dei tanto, que perdão não dou.

Não porque não tenha,
mas porque ao não me pedir tudo se perdeu.

Assim não me dôo mais por ti,
e me doendo perdôo a mim.

20.10.14

Pesadelo da aurora

Tantos sonhos acordada
O olho já não prega
A cabeça em marteladas
Fixação

Muito tento tomado
Consciente em atenção
Tentação que não se rende
Redenção

Inconsciente desperto
Tão longe
Cansaço que invade
Solidão

17.9.14

caos-tastrofe


.batidas de uma estrofe em busca de harmonia:

CAOS-A-CASO-CAOS-A-CAOS

acordes que despertam mas não entram em sintonia.

12.9.14

na pedra do caminho tinha um meio


no sabor do vento
vem o orvalho
vem galhos secos
vem os aromas do colorido das folhas  .

conforme a dança
vem o compasso
vem os tropeços
vem o embalo  .

deixando me levar
vem a leveza
vem a incerteza
vem a vida  .

indo com as outras
vem as marias
vem as emilias
vem os pastores e os imperadores
(às vezes os pequenos, às vezes os grandes)  .

e no fluir vem as amarras
o enlaço com outros
os novelos e novelas
e, frouxas ou justas, minhas rédeas  .

16.7.14

espelho, espelho eu

no espelho não há reflexo
tudo opaco
desfigurado

faltam contornos
e não sei como contornar

por onde traçar meus sonhos
preencher lacunas
e colorir

reflexão do que está por dentro
sem ter o que refletir

2.6.14

ou... tono


verões destronados
distintos tons

melódicos verdes gris
para verdes invernais

luz dourada arrepiando a pele
aconchegando em sóis e interiores

secando rios, folhas
e virando páginas

ao vento que gela
mas embala o coração

20.5.14

*bolhar*


vidas em quinas e arestas
curtas e longas distâncias

mira se insinu(c)a e se impõe
no plano, se bola:

a tacada dada
e as bolhas no ar

ponteio. bolhar.

1.5.14

** pés pelas mãos **


E hoje (um ano passado) vejo que faltou a despedida.

As tentativas de explicação engasgaram,
cada um se entendeu a seu modo.

Quando tentei acenar o tchau,
vi minha mão balançando no ar por meses a fio...

A mão que você por vezes procurou era para apoio,
nunca compartilhou a despedida.

Engoli um adeus em silêncio.

Minha mão se encheu de vento,
como a nuvem que eu imaginava agarrar
andando de carro e olhando pro céu na infância.

As mãos tão livres e vazias,
deram energia para os pés,
que seguiram seu caminho...

Ir-mãos

A busca de outras mãos companheiras...

Para balançar, brincar, abraçar, segurar, aplaudir.

"se meu corpo estivesse marcado 
por lábios ou mãos carinhosas, 
se saberia..."

Os beijos roubados, os abraços esquecidos, as mãos dadas...




21.4.14

n-ovo


re-colhida
em topo de galho

parto em nas-cimento
duro e flor-ido

cam-ninhada
para descascar

minhocas para alimentar

e voar...

27.3.14

confissões venosas


men-tiro
no alvo
negro coração

em macúmulos
de sepultadas doces lembranças
em-fartas derramadas

assim resta
entre nós
dor-mentes

20.3.14

spoon me de conchinha


Noite romântica
estouro
garrafa aberta
escorrendo
na taça

Spoon me

Meia-noite
lua crescente
taças sorvidas
lambidas
no pescoço

Fork me

Noite adentro
arranhão
pescoço marcado
lambidas
nas bocas

Dessert us

4.2.14

contagem progressiva

fazer,
pedir,
resolver,
fechar:

contas

dívidas
de vida
divididas

parcelas de trabalhos,
paixão,
e sonhos

busca da equação onde tudo caiba
todos se encaixem
e ainda sobre um cantinho só meu...

27.1.14

desfio da meada


enozada
buscando laços
entre embaraços


31.12.13

cada ano seu recreio


chega de balanço
de gangorra
gira-gira

deixa que os outros brinquem ao redor

tempo de voltar às origens

o melhor do pátio era o tanque de areia
surpresas em conchinhas
formigas
folhinhas
e infinitos castelos pra construir e povoar

pensamentos, sonhos, planos, faz de contas:

era uma vez 2014...

23.12.13

metas físicas


tempos de planos
todos em coordenadas ao redor

aqui, altos e baixos
curvas fora do eixo em diversas dimensões

pontos dispersos
linhas tortas
x, y, z

muitos lados possíveis
lado a, lado b, lado a lado, traçados alados

mas sempre com sonhos, sempre metas
busca de fórmulas e equações para resultar concreto, real, físico e mais além...

(como chocolate, pequena! e panetone! com goles de lágrimas, saliva e champagne!)

2.12.13

des pé ta la da


. pétala ante pétala a aridez se esvai
orvalhando lágrimas que escorrem ao pé do talo

se farfalham ao pétalo do ouvido
sussurrando novos horizontes

invade então o aroma que inebria
fazendo trocar pétalas pelas mãos

assim espalham despedaços que florescem
perfumando à pétala da letra .

28.11.13

data vespeira de mel


ansiedade como se fosse hoje
criança com pacote nas mãos
o laço não faz anúncios
mas pode trazer presentes
o que mais quero

muito passado no colo
e futuro na garganta entalando
é preciso engoli-lo
pois ele não foi nem será

respirar tranquila e sonhar no agora
com o presente aberto, seja o que for...

14.11.13

re (ru) mando


tanta vida pela frente que ficou pra trás
dividida em direções possíveis
em meio ao meio e em busca de meios
de chegar lá, ou ainda adiante...